Faturamento eletrônico no turismo

Faturamento eletrônico no turismo: o que realmente complica

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Uma agência que começa a analisar o faturamento eletrônico no turismo costuma partir de uma pergunta errada: qual programa cumpre a lei. A pergunta que realmente organiza o problema é outra: que tipo de operação a agência está faturando em cada venda, pois é aí que tudo o mais começa a se complicar.

Na maioria dos setores, faturar é um passo quase mecânico: vende-se algo, emite-se um comprovante por esse algo. No turismo, essa lógica se quebra cedo, porque o que a agência vende quase nunca é um serviço próprio. É a combinação de serviços de terceiros (hotéis, transportes, excursões, seguros) empacotados e revendidos sob condições que variam de acordo com o fornecedor, o destino e o tipo de cliente.

Faturamento eletrônico sobre uma venda que reúne vários fornecedores

A agência, em geral, fatura sempre em nome próprio: é ela quem centraliza a operação e emite o comprovante final ao cliente, independentemente de quantos fornecedores existam por trás dessa reserva. Esse ponto não está em discussão. O que realmente complica as coisas é tudo o que fica escondido por trás desse único comprovante.

Uma reserva de uma semana pode incluir hotel, traslados, uma excursão e um seguro, cada um contratado com um fornecedor diferente e em condições distintas: tarifa líquida, comissão, moeda, prazo de pagamento. O cliente vê apenas uma fatura por um valor total. A agência, internamente, precisa manter o detalhamento de cada componente para saber quanto aquela venda realmente custou e quanto lucrou.

Quando esse detalhe não é registrado com a mesma clareza com que a fatura é emitida, o comprovante acaba sendo um número correto que não conta a história completa por trás dele. E essa história é justamente a que será necessária depois para calcular margens, declarar impostos ou resolver uma reclamação de um fornecedor. Um sistema de faturamento eletrônico bem integrado não substitui esse trabalho de base, mas evita que ele se perca no caminho.

Faturamento eletrônico quando o recebimento e o serviço ocorrem em momentos diferentes

O segundo fator que complica as coisas é o tempo. Uma reserva é recebida hoje, paga a um fornecedor em outro momento e o serviço é prestado semanas ou meses depois. No meio do caminho, podem surgir pré-pagamentos parciais, ajustes de tarifa e comissões que só são liquidadas quando a viagem termina.

Esse descompasso não se encaixa facilmente em uma lógica de faturamento pensada para uma venda e uma entrega simultâneas. Se o sistema da agência não conecta a reserva, o recebimento e o comprovante em um mesmo fluxo, cada um desses momentos acaba sendo registrado separadamente, e reconstruir depois o que corresponde a cada reserva torna-se um trabalho manual que nenhuma ferramenta de faturamento eletrônico resolve se não estiver integrada à operação.

Isso é, no fundo, um problema de rastreabilidade antes de ser um problema fiscal. Automatizar a contabilidade da agência sem transformar toda a equipe em contadores costuma ser o passo prévio necessário para que o faturamento, eletrônico ou não, tenha uma base organizada sobre a qual se apoiar.

Faturamento eletrônico em operações que cruzam mais de um país

Uma agência de receptivo que cobra de um operador estrangeiro, um atacadista que revende para agências de outros mercados ou uma DMC que fatura serviços prestados em um país diferente do seu cliente enfrentam uma variável adicional: cada jurisdição define seus próprios requisitos, e esses requisitos mudam com uma frequência que raramente coincide entre os países.

Não é preciso memorizar cada norma para entender o problema de fundo. Basta reconhecer que uma mesma reserva pode envolver mais de um marco fiscal ao mesmo tempo: o do país onde o serviço é prestado, o do país onde o cliente final está registrado e, às vezes, o do país onde o fornecedor opera. Quanto mais internacional for a carteira de uma agência, mais essa variável se multiplica.

Por isso, avaliar um programa de faturamento ideal para agências de viagens exige olhar além de se ele emite comprovantes corretamente. É preciso entender se esse sistema pode conviver com operações que nem sempre se enquadram em um único marco normativo.

Perguntas para diagnosticar o quão preparada está sua agência

Quase nenhuma agência chega a este ponto sem ter resolvido o faturamento de alguma maneira. Raramente o problema é a ausência de comprovantes. Com mais frequência, o que falha é a base sobre a qual se fatura, algo que ninguém terminou de organizar totalmente e que só aparece quando surge um sintoma concreto: uma reserva que não se sabe se foi faturada, um cliente que reclama de um comprovante que não coincide com o valor pago, uma mudança normativa que chega sem que ninguém da equipe tenha previsto.

Antes de pensar em ferramentas, vale a pena responder a algumas perguntas sobre a própria operação. Não existe uma única resposta correta, mas existem respostas que revelam onde está o ponto fraco:

  • Sua equipe distingue com clareza, reserva por reserva, se está vendendo em nome próprio ou intermediando por conta de terceiros?
  • Você consegue reconstruir hoje, sem procurar em três sistemas diferentes, o que foi recebido, o que foi pago e o que falta faturar de uma reserva específica?
  • Você sabe em quais países sua agência opera sob requisitos de faturamento eletrônico obrigatório e em quais não?
  • Quando uma norma fiscal muda em algum dos seus mercados, como sua equipe administrativa fica sabendo?
  • Se um fornecedor internacional muda sua forma de faturar, essa mudança se reflete em como sua agência registra a operação ou fica isolada em um e-mail que ninguém volta a ler?

Nenhuma dessas perguntas tem uma resposta que possa ser improvisada na hora. As agências que as respondem com segurança costumam compartilhar algo em comum: a informação financeira está conectada à operação, não espalhada em arquivos paralelos que alguém concilia no fim do mês. Já as que hesitam costumam descobrir que o que faltava, antes de um bom programa de faturamento, era um critério claro sobre como registrar cada tipo de venda desde o início.

Organizar o faturamento eletrônico antes que a norma obrigue

A tentação, diante deste cenário, é esperar que a obrigação chegue formalmente antes de agir, mas isso costuma custar caro mais adiante. Se isso acontecer, a multa por não cumprir a nova norma a tempo é apenas o primeiro custo. O mais pesado costuma ser o tempo necessário para reconstruir informações que nunca foram organizadas na origem, justamente quando há menos margem para fazer isso com calma.

Esse reordenamento não depende apenas da tecnologia. Depende, primeiro, de a agência ter clareza, para cada tipo de venda, se está faturando em nome próprio ou por intermediação, como os tempos se distribuem entre o recebimento e o serviço, e em quais mercados opera sob regras diferentes. Sem essa base, qualquer sistema acaba herdando a mesma desordem que pretendia resolver.

Conectar a reserva, o recebimento e o comprovante em um só lugar é, no fundo, o objetivo das plataformas de gestão pensadas para o turismo. A Toursys, por exemplo, integra a emissão da fatura eletrônica com a operação nos mercados onde ela é obrigatória e, nos que não é, organiza e centraliza a informação fiscal para que esteja pronta quando for necessária. O alcance específico varia de acordo com o país, por isso convém confirmá-lo pontualmente antes de assumir qualquer coisa.

O ponto de partida, no entanto, não muda com a plataforma escolhida: entender primeiro como a operação da agência está estruturada, reserva por reserva e país por país, para que a tecnologia acompanhe essa organização em vez de tentar substituí-la. Quando essa base existe, o faturamento eletrônico deixa de parecer uma obrigação imposta de fora e começa a funcionar como uma consequência natural de como a agência já trabalha, sem surpresas toda vez que um mercado atualiza suas regras.

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Escrito por

Luis Cardenas

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